Curiosidade 07 – Classificação Morfológica dos Pré Embriões

CLASSIFICAÇÃO MORFOLÓGICA DOS PRÉ EMBRIÕES

Com o avanço das técnicas de reprodução assistida, é de fundamental importância selecionar o melhor embrião para a transferência. É necessário identificar o melhor embrião para limitar o seu número nas transferências, minimizando o risco de gestação múltipla. As necessidades do embrião, quando, quais e quantos transferir são questões cada vez mais estudadas pelo meio científico.

Desde a introdução da FertilizaçãoIn Vitro (FIV) no tratamento de infertilidade, inúmeros estudos têm sido realizados com o objetivo de se desenvolverem biomarcadores e produtos do metabolismo embrionário. No entanto, a análise morfológica, ou seja, a avaliação visual permanece o método de seleção mais utilizado no dia a dia da maioria dos laboratórios. Na maioria dos serviços avalia-se a qualidade embrionária a partir da análise dos gametas (oócitos e espermatozóides) até a fase de embriões, quando então notas dos parâmetros avaliados durante este período de cultura celular, permitirão a escolha daqueles PE a serem transferidos.

Nesta curiosidade abordaremos a classificação de embriões clivados,ou seja, divididos no dia 2 (45-46 horas pós inseminação ou injeção) e no dia 3 (54-57 horas pós inseminação ou injeção).

A classificação dos embriões em estágios mais avançados, como no estágio de blastocisto, discutiremos em outro momento.

DESENVOLVIMENTO EMBRIONÁRIO E MORFOLOGIA

Vários sistemas de graduação são utilizados e baseados principalmente na velocidade de clivagem (velocidade de divisão celular), número e tamanho dos blastômeros (células) e na porcentagem de fragmentação dos embriões. Outros sistemas de classificação mais rigorosos, consideram também importante avaliar a multinucleação das células, as alterações extra e intra citoplasmáticas e o grau de interação celular. Para melhor entender o valor dos critérios morfológicos que norteiam a seleção embrionária para transferência, deve-se analisar detalhada e isoladamente cada parâmetro para assim, classificar o  embrião como um todo, estabelecendo notas de acordo com o seu potencial. Vale lembrar que a classificação de embriões é um processo contínuo, que prioriza o histórico dos mesmos. Portanto, não é de uma avaliação isolada que se obtém uma classificação, e, sim, do conjunto de dias de cultivo analisados.

Vamos aqui avaliar alguns destes pontos :

 

CLIVAGEM

Clivagens são as várias divisões celulares que resultam em um rápido aumento no número de células ou blastômeros. Normalmente, no dia 2 de cultivo celular (D2) os  embriões atingem o estágio de 4 células (Figura 1), e no dia 3 (D3) o estágio de 8 células (Figura 2).

 

FRAGMENTAÇÃO

A fragmentação é um fenômeno é observado tanto In Vitro como In Vivo, e parece ser um acontecimento natural durante o desenvolvimento embrionário. A interpretação do significado real da fragmentação celular para o potencial de desenvolvimento do embrião, passa  pela observação de que não só a quantidade como também a distribuição (onde os fragmentos estão localizados)  podem ser importantes na seleção embrionária.

            Existem muitas classificações e notas diferentes para a fragmentação e cabe a cada laboratório adequar a melhor para a sua rotina diária. Eu sigo o critério estabelecido pelo autor Alikani  onde a fragmentação é dividida em 5 tipos, de acordo com sua quantidade e localização (Tabela 1). 

 MULTINUCLEAÇÃO

Embriões humanos que são cultivados In Vitro podem ter dois ou mais núcleos visíveis em um mesmo blastômero e o correto é que se tenha um núcleo em cada célula. Apesar de observada em um terço dos embriões e ser responsável por uma maior incidência de alterações cromossômicas (74,5%) quando comparados com embriões não multinucleados (32,3%), estes ainda podem ser viáveis. A multinucleação também está correlacionada com a diminuição da taxa de implantação e do desenvolvimento embrionário, levando conseqüentemente a uma menor taxa de formação de blastocistos. Além disso, alguns trabalhos mostram que a multinucleação está diretamente associada à idade feminina e à fragmentação embrionária.

Conclui-se então que independente da origem da multinucleação observada nos embriões, estes são considerados como de baixa capacidade de desenvolvimento.

ALTERAÇÕES EXTRA E INTRA CITOPLASMÁTICAS

 ZONA PELÚCIDA

A zona pelúcida é uma glicoproteína que reveste o pré embrião e serve como barreira de proteção durante a implantação embrionária, além de preservar a estrutura tridimensional e a integridade do  embrião.

O afinamento da zona pelúcida inicia-se durante a primeira e a segunda clivagem e continua progressivamente até a formação do blastocisto. No entanto, esse afinamento não ocorre em todos os embriões, o que pode dificultar a implantação dos mesmos.

Alguns embriões podem adquirir uma alteração na coloração da zona pelúcida, sendo marrom-amarelada ou marrom escura e são candidatos, à serem submetidos ao Assisted Hatching(abertura forçada da zona). (tema para mais uma curiosidade inteira).

Os embriões podem ter zona pelúcida com formatos bem estranhos como: ovalados, vírgula, ampulheta, entre outros. No entanto, quando estas formas aparecem, a capacidade de formar blastocistos ficam bastante reduzidas devido à dificuldade de interação entre os blastômeros.

 VACUOLIZAÇÃO

A vacuolização geralmente indica um prognóstico ruim para o desenvolvimento ideal do pré embrião. No entanto, os vacúolos pequenos, são bastante comuns e podem não interferir no potencial embrionário, enquanto os vacúolos grandes são prejudiciais e contribuem para a diminuição no desenvolvimento do pré embrião.

Vale a pena ressaltar que muitas outras características podem ser incluídas e avaliadas quando presentes, podendo alterar a nota do pré embrião. A decisão de possuir uma classificação mais rigorosa e completa na rotina do laboratório varia de acordo com a experiência dos embriologistas que devem fazer esta avaliação em um menor tempo possível para não expor os embriões a um stress desnecessário e aí voltamos a curiosidade anterior que explica porque é tão importante e como funciona o controle de qualidade.

Fran